janeiro 26, 2012

Emigrar, mendigar, submergir

O caminho da austeridade que seguimos conduzirá irremediavelmente a mais e mais recessão. Avisam uns e outros. Com vantagens inegáveis, asseguram uns apesar dos maus augúrios dos outros. Assim não teremos outro remédio senão poupar: se não mudamos de vida a bem, mudamos a mal e equilibramos a balança comercial. Quê? Desta forma, afundamos de vez os pequenos comerciantes e prestadores de serviços? E lançamos mais uns valentes milhares para o desemprego? Do mal, o menos, argumentam ainda: bem vistas as coisas, parece que temos aqui uma oportunidade histórica para reestruturar o tecido empresarial nacional - essa malha difusa e dispensável, largamente constituída de microempresas familiares que são um empecilho à modernização e desenvolvimento do nosso tecido produtivo -, investindo em empresas de maior dimensão, mais qualificadas e competitivas, vocacionadas para vencer desafios difíceis e voltadas para a internacionalização. Como, por exemplo, fintar legalmente o fisco ou pôr ao fresco o capital próprio. Que cada um luta com as armas que tem, como é sabido.

Bem, e o que diremos aos milhares de pequenos empresários e famílias que perderam ou estão em vias de perder o seu sustento? Sobretudo agora, que vai ser mais fácil despedir e o Estado se vai tornando cada vez menos solidário (menos apoios sociais, menos subsídio de desemprego e durante menos tempo)? Sobretudo àqueles que já ultrapassaram a barreira dos 40 ou 50 anos, que são menos qualificados e que serão certamente apartados de um mercado de trabalho cada vez mais selectivo e sectário? Desenrasquem-se, pois claro! E esta política do desenrascanço aponta-nos três caminhos alternativos e viáveis, por demais evidentes: emigrar, uma tradição nacional em horas de aperto e à qual já nos aconselharam os nossos precavidos governantes; mendigar, uma actividade em amplo crescimento, pelas ruas ou de forma mais institucional; submergir na informalidade, uma prática com raízes antigas e nunca erradicada entre nós, cada vez mais disseminada e ainda com um amplo potencial de crescimento. Pois é, é só escolher, mas não haverá como a economia informal para desenrascar e sobreviver.

E é assim que pretendemos alicerçar o futuro do país. Marginalizando e empurrando para fora do sistema formal (ou do horizonte nacional) todos aqueles cujos perfis não se adequam ou que nunca se chegarão a adequar às necessidades de uma economia que pretendemos próspera e competitiva. Lançando na precariedade e na clandestinidade muitos milhares de cidadãos e famílias. Fazendo engrossar as franjas de uma sociedade que se pretende desenvolvida. Cavando ainda mais o fosso entre ricos e pobres e sobrecarregando irremediavelmente os remediados (leia-se, classe média) com mais impostos. Isto não é só depressão (psíquica, económica e social) meus senhores, é regressão pura e simples. É este o caminho que pretendemos fazer? É esta a sociedade que queremos?

Publicado por Conceição Pereira às 04:40 PM | Comentários (0)

janeiro 06, 2012

Ilusões

É bem verdade que certas vezes confundimos as aparências com a realidade. Ou será antes ao contrário? E a maior ilusão de todas não residirá exactamente na crença de que caminhamos em frente, seguindo a linha ténue e fugidia do tempo, quando na realidade voltamos sempre ao mesmo ponto de partida? E se a linha do tempo, por onde caminha a nossa vida, é circular?

COMBOIO

Aqui (movente ou parada?)
Vou contra a vida que foge
Nos campos que à desfilada
Vão ao invés do que corre.

Que deus me ilude ou me mente?
Porquê na hora fugaz
Eu julgo que vou para a frente
Se tudo avança para trás?

Acaso egressa o tempo
Ao que era antes do mal
Nas árvores que recuam
À floresta inicial?

Natália Correia

Publicado por Conceição Pereira às 05:28 PM | Comentários (0)

janeiro 01, 2012

Tempo

O pêndulo balança dança
O tempo corre voa
E eu não sei gerir o tempo
Ele esvoaça solta-se
Desprende-se de mim
- Fica – digo-lhe inquieta – preciso de ti
Ele contorce-se fugidio e indolente
- Não vás embora, preciso de tempo
Ele afasta-se indiferente
- Tempo volta! Tenho tanta coisa por fazer…

Conceição Pereira
Lisboa, Maio 2007


Publicado por Conceição Pereira às 06:21 PM | Comentários (0)

dezembro 25, 2011

Ser inteiro

Pôr o que somos em tudo aquilo que fazemos, será a única forma de não nos trairmos a nós próprios:

PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Fernando Pessoa/Ricardo Reis

Publicado por Conceição Pereira às 06:33 PM | Comentários (0)

dezembro 23, 2011

Alguém nos perguntou?

Temos agora um quinto da EDP nas mãos de interesses chineses, para gáudio deles e deslumbramento nosso. Parece que choveram, pelo menos em teoria, uns bons milhares de milhões, que pelos vistos será o que mais conta por estes dias de devastação e escassez. Talvez a mim, que não estou dentro de tal negócio, me esteja a escapar uma qualquer estratégia grandiosa do governo português. A mim e à grande maioria que o elegeu. Talvez, vão sugerindo alguns, que a grande oportunidade, quiçá salvação, da pátria esteja afinal por esse vasto e promissor território da Ásia e não na Europa e no mundo onde se fala português, como nos têm andado a dizer. Bom, talvez… a gente é que não está a ver.

Dentro em breve, o Governo prepara-se também para oferecer a quem der mais a TAP, a CGD (seguros), os CTT, a REN, a Águas de Portugal e sabe-se lá mais o quê. Nos anos que se seguem é ouvir tilintar nos cofres públicos, tão à conveniência dos nossos governantes. Tudo para ficarmos um país mais inovador e competitivo, asseguram-nos. E também mais leve, creio eu. Não há nada como aliviar o Estado de umas quantas empresas em troca de uma soma considerável, para logo a seguir aliviar os cofres públicos abatendo juros e dívidas acumuladas e, assim, poder aliviar também as contas públicas por uns anitos mais. Depois, quem está que feche a porta e quem vier a seguir que se… desenrasque.

Mas, por enquanto, sou assaltada por três pequenas dúvidas metódicas: será que vão ser os chineses a ficar com as restantes jóias da coroa ou a estratégia governamental passa por uma diversificação da proveniência do capital (Brasil, Angola, Alemanha…)? Será que essa estratégia tem na sua base um projecto de desenvolvimento sustentado, integrado e coerente para o País, respeitador dos recursos e potencialidade que temos, integrador das diversidades que somos (desde o interior profundo e desertificado ao litoral depenado), promotor das ideias de futuro que queremos? E será que um tal projecto poderá ir avante sem nele se envolverem, de alguma forma, os cidadãos e as instituições?

Uma coisa parece certa: com tantos interesses externos a instalarem-se em sectores estratégicos para o País, vamos ficar, a prazo, de certeza mais pobres e com muito menos capacidade de gerir o nosso destino colectivo. Um Governo eleito, na sequência de campanha eleitoral cheia de discursos pomposos e demagógicos e de programas vagos que só nos atiram areia para os olhos, fica assim mandatado para promover a espoliação do País? É isso que nós, portugueses, queremos? Alguém nos perguntou isso em português corrente? Saberemos sequer para onde vamos e o que encontraremos pela frente?

Publicado por Conceição Pereira às 04:17 PM | Comentários (0)

dezembro 20, 2011

Porque às vezes queremos voar...

... alto de mais e o choque com a realidade é tremendo:

PERDIGÃO PERDEU A PENA

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a ua alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões

Publicado por Conceição Pereira às 07:36 PM | Comentários (0)

novembro 30, 2011

Onde pára a Poesia?

Há a poesia dos dias tristes
E dias tristes em que a poesia não entra
E há o hino poético às coisas boas da vida
E dias felizes que são poesia leve e solta
Que não se deixa agarrar na escrita densa e inquieta

E há, como hoje, os dias vagos e incertos
Feitos de desorientação e de espera
Em que a poesia nunca mais chega
Onde pára a Poesia?
Hoje é, deve ser, dia de prosa

Conceição Pereira
Lisboa, Junho 2009

Publicado por Conceição Pereira às 05:39 PM | Comentários (0)

novembro 23, 2011

O homem da concertina (2)

Hoje voltei a encontrar o homem da concertina. Estava acompanhado por um outro que eu nunca vira, ambos de chapéu e vestidos de escuro. Pediram aguardente e cerveja, ainda não passavam senão alguns minutos do meio-dia. Pelo aspecto, pareceram-me ciganos. Têm um certo ar de passado, com os seus fatos escuros e os seus chapéus de feltro. E com a concertina mesmo ao lado.

Publicado por Conceição Pereira às 09:38 PM | Comentários (1)

novembro 14, 2011

Desassossegos 2

A AUTÊNTICA ESTAÇÃO

È verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os ossos
e me leva a sentir saudades do inverno
A luz o cheiro a intimidade o fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação

Ruy Belo, Todos os Poemas I, Assírio e Alvim

Publicado por Conceição Pereira às 03:00 PM | Comentários (1)

novembro 12, 2011

As pessoas

As pessoas comuns (ou até menos comuns)
Querem sempre o que não têm (dizem uns)
E até o que não está ao seu alcance (opinam outros)
Vivem de olhos postos no futuro
Sempre à espera que cheguem melhores dias

As pessoas cobiçam o seu próximo
A vida modelo que lhe acham próspera
A família tão perfeita e harmoniosa
A casa de sonho o carro de marca
A aparência sempre impecável e na moda

As pessoas vivem cansadas saturadas
Fartas das suas rotinas infindáveis
Porventura acreditando
Que elas não existem nas vidas
Alheias e perfeitas daqueles que cobiçam

As pessoas esperam, esperam sempre mais
Num mundo que lhes fez acreditar
Que toda a mudança é possível
Para poderem transpor a condição
Que é ou foi o seu ponto de partida

As pessoas sonham, arquitectam, magicam
Inquietam-se, partem à procura
Desejam até ao impossível
Ainda que por vezes nem saibam sequer como arrancar
Da fase de projecto que é as suas vidas

As pessoas até podem dizer mal
Do amigo, do vizinho, do colega
Porque acham que nasceu de cu pró ar
Ou porque soube encaminhar a sua vida
Mas o que sentem é muita frustração (e inveja, sim, inveja)

As pessoas não sabem lidar com a frustração
São até dissimuladas, cobardes, vilãs
E lutam com as suas armas
As que vão aprendendo a manejar
Ao longo dos caminhos que percorrem

As pessoas vão mantendo viva a esperança
Mesmo quando dizem, asseguram
Que já pouco ou nada podem esperar da vida
Porque, mal ou bem, a vida semeia nelas sonhos
E elas projectam os seus sonhos na vida

Conceição Pereira
Lisboa, Junho 2011

Publicado por Conceição Pereira às 07:36 PM | Comentários (0)